Em cerca de 20% dos assaltos a banco os bandidos tomaram funcionários como reféns, antes ou depois da ação criminosa
É
obrigatório usar roupa social, sempre sorrir e atender bem o cliente. É
necessário conhecimentos avançados na área econômica. Nas suas mãos,
por dia, passa muito dinheiro. Profissão: gerente de banco, com
dedicação de 40 horas semanais.
Mas, para ganhar salários que
variam entre R$ 3 e 4 mil, a vida dos gerentes e de suas famílias fica
em risco constante. Anteontem, o bancário R.R., gerente do banco Itaú da
avenida Manoel Dias da Silva, na Pituba, teve sobrinha e filha
sequestradas e foi obrigado a entregar R$ 280 mil da agência para que as
garotas fossem liberadas pelos bandidos.
Depois das situações de
violência, o reflexo na vida dos funcionários é imediado. Ontem, o
gerente do Itaú que foi vítima da extorsão mediante sequestro pediu
licença. Dos 76 ataques a bancos ou terminais eletrônicos registrados na
Bahia este ano, em 15 casos (cerca de 20%) os bandidos tomaram
funcionários como reféns, antes ou depois da ação criminosa.

O
secretário geral da Federação dos Bancários dos Estados da Bahia e
Sergipe (FEEB), Ermelino Neto, afirma que após assaltos e sequestros,
muitos funcionários entram em pânico e precisam ser afastados das suas
funções.
Tensão A vida dos gerentes de bancos é uma
eterna tensão. Os bancos não assumem, mas chegam a pagar segurança
privada para os gerentes em algumas cidades consideradas mais perigosas.
Ex-gerente
de uma agência do Banco do Brasil em Paulo Afonso, um bancário, que
prefere não se identificar, conta que no período em que trabalhava na
cidade andava com seguranças armados, o que assustava sua família.
“Era
uma tensão constante com a possibilidade de ocorrer um assalto ao banco
da cidade. Mexer com dinheiro é perigoso e nos últimos anos isso ficou
mais perigoso ainda”, diz o bancário, que pediu transferência para outro
estado.
Na época, por questões de segurança, as filhas dele
sequer podiam dizer na escola que o pai era gerente do banco. “Já vi
colega amarrado dentro de casa, com explosivos. Já vi gerente de banco
ter que se aposentar por invalidez em função de problemas neurológicos”,
ressalta.
O gerente de uma agência da Caixa Econômica Federal
(CEF) do Centro de Salvador há 15 dias sofreu um ataque depois que
percebeu que estava sendo seguido.
“Tinha percebido
movimentações estranhas no banco durante a semana. Resolvi nesse dia
sair de moto e, na Avenida Paralela, senti que estava sendo seguido
pelos caras que estavam me rondando no banco. Eles vieram pra cima de
mim e começaram a jogar a moto. Acelerei e me atirei com moto e tudo
para dentro de um estacionamento”, conta o gerente, que já mudou de casa
e pediu para ser transferido de agência.
Regras O
pedido de transferência feito pelo gerente depois do ataque é apenas um
dos muitos itens que constam em procedimentos e protocolos de segurança
que os bancos obrigam os funcionários a cumpir.
Dentre eles, por
exemplo, está a orientação para que os gerentes não circulem de crachá
nas áreas externas do banco, troquem o número do celular com frequência,
criem rotas alternativas para se deslocar de casa para o trabalho e até
mesmo mudem de roupa ao final do expediente, antes de ir embora.
Para
o secretário geral da FEEB, esse tipo de medida é pouco efetiva. “Os
bancos fazem isso pensando na proteção do patrimônio deles e não no
bem-estar do funcionário. Nenhum banco faz um acompanhamento, via
câmeras, de todas as suas agências através de uma central de
monitoração, por exemplo. Isso encarece para eles”, reclama Ermelino
Neto.
Demissão Por
descumprirem as ‘normas’, este ano, quatro gerentes de bancos atacados
já foram demitidos na Bahia, segundo dados do Sindicato dos Bancários do
estado. Um dos demitidos é João Paulo Marques Cavada, que trabalhava no
Itaú desde 2006 e foi sequestrado no dia 10 de fevereiro durante um
assalto na agência. Depois do assalto ele tirou férias e foi demitido no
retorno às atividades.
Através de nota, o Itaú afirmou que “o
desligamento do funcionário ocorreu de forma respeitosa. Uma análise
minuciosa mostrou que orientações da instituição sobre ações
preventivas, inerentes à função do ex-colaborador, não foram seguidas”.
Na
mesma nota, o banco destacou que a instituição atualiza e reforça os
procedimentos de segurança em toda a rede constantemente a fim de
preservar todos os envolvidos em suas operações.
“Os bancos
afirmam que é sempre falha humana, mas não investem em equipamentos que
facilitem a monitoração”, indica Almir Leal, diretor do Sindicato dos
Bancários da Bahia.
O gerente regional de gestão de pessoas do
Banco do Brasil na Bahia e Sergipe, Rodrigo Guerra, indica que os
funcionários do banco (todos admitidos através de concurso) recebem
treinamento com instruções de segurança.
Além disso, ele afirma
que, após situações de violência, tanto os funcionários quanto seus
familiares envolvidos recebem acompanhamento. “O banco tem ações de
assistência à saúde física e psicológica, que também abrange as
famílias”, diz. CEF, Bradesco e Santander foram procurados, mas não se
manifestaram.